Anais das Experiências Imaginárias

AIEI

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O delírio de H.

Janto, cavalo de Aquiles, previra a morte do dono. Tal fato, narrado minuciosamente por Homero, servirá de ponto de partida para o caso de H., que se configura no primeiro relato de delírio observado por nossos colegas do Instituto Húngaro de Experiências Imaginárias, cuja veracidade foi atestada por renomados especialistas de diversas nacionalidades.

Sultan é o Janto deste caso. Já lhes disse que nosso Aquiles é H. e, agora acrescento, que foi um renomado traficante de ópio no início do século XIX, cujos domínios avançavam por toda a Europa Oriental. Não fora um herói, como o grego. Outra diferença é que Sultan não é um cavalo, mas um gato, portanto as previsões foram miadas, não relinchadas, o que gerou enormes dificuldades de interpretação. Porém, repito: a veracidade do caso é indubitável.

Vamos ao caso: tudo começa quando H. resolve executar a limpeza da areia do mictório de Sultan. O cheiro inebriante invadiu-lhe com força, atingiu o cerebelo de H. com a precisão cirúrgica dos odores inesquecíveis. Sultan, indiferente aos sofrimentos do dono, começa a se esfregar em suas pernas bambas. Neste momento o gato começa a crescer a cada esfregada até que se transforma num hipopótamo alado, que ainda miava para se comunicar. A cada miada do gigante alado todo o corpo de H. tremia em consonância e imagens formavam-se em sua cabeça: uma fenda com uma misteriosa luz, seios ainda molhados de leite, entre outras imagens, até que por fim uma luz com uma misteriosa fenda. Neste ponto do relato os miados ficaram mais estridentes, apesar de não ser o clímax do caso atual, segundo o frenologista húngaro, Sorda Huystch.

Huystch assim nos contou como se deu a previsão da morte, a qual ocorreu exatamente no clímax do delírio de H.: “Paciente H., cerebelo constipado. Fortes imagens. Associações inegáveis entre a forma oblíqua de seus olhos e a fenda de luz. A morte estava na cara dele, desde o nascimento. No clímax, segundo relatos precisos extraídos da comparação, através de espectrômetro gama, entre os miados delirados e os delírios de H., houve um clássico episódio de empatia delirante. Ao cortar o pequeno cérebro de Sultan, encontramos formas precisamente iguais às encontradas no cerebelo de H., o que nos permite dizer que se tratou de metempsicose. O gato, hipopótamo alado, passeou pelo cérebro do dono com a liberdade dos pássaros, invadiu os terrenos mais movediços do cérebro humano. Viu o derradeiro momento, a fenda se fechando rapidamente. O miado final de Sultan, mortal para H., foi longo, pausado; resumindo, foi realmente um alívio.” Vê-se, portanto, que com este caso abriu-se todo um novo campo de pesquisa na área de experiências imaginárias, inclusive de animais. A morte, fato certo para todos, é incerta para cada um, porém o presente relato permite-nos concluir que há enormes possibilidades de descobrirmos esse momento fatídico através da associação dos espectros dos delírios mútuos, tal como se observa em alguns momentos da relação entre um animal e seu dono.

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O caso do homem que confundiu seu chapéu com uma mulher, parte final

Nesta parte final de nosso relato do caso de M., trataremos de sua condição única, que dá título à série.

Em seu confinamento, M. foi tomado por um distúrbio depressivo gravíssimo. Encarcerou-se num eterno presente, onde o único sentimento que o preenchia era a culpa. Não era capaz de vislumbrar um futuro e trazia de volta o passado apenas para sentir ainda mais dor e culpa. Neste período de seu calvário psíquico, tiveram início também os episódios psicóticos. Tornou-se agitado, insône, o comportamento, de caráter obsessivo-compulsivo.

Mais um momento de transformação em sua vida. Passa de um estado praticamente vegetativo a um de intensa atividade. Os episódios psicóticos cada vez mais frequentes e intensos. Sentado em sua prancheta, desenha chapéus incessantemente. Recorta, costura, monta, cola, desfaz e destrói tudo, volta a construir, num processo repetitivo e frenético. Vê-se então cercado de retalhos de chapéus. Neste momento, experimenta seu surto psicótico mais extremo. Uma mulher se forma a partir dos retalhos, uma espécie de aparição, Virgem Maria, sagrada e iluminada, mas ao mesmo tempo sensual e voluptuosa. Ora M. a vê como uma imagem de pureza, compreensão e amor fraternal, de braços estendidos, um manto azul sobre o corpo, ora uma linda mulher completamente nua, de seios fartos e corpo perfeito, convidando-o para uma união eterna de prazer sexual. De imediato, sente um amor monumental por tal criatura divina.

A imagem da mulher divina fica gravada em sua memória, marcada, tal como uma tatuagem, de maneira indelével e dolorosa. Para o seu desespero, ao tentar alcançá-la e tocá-la, se vaporiza numa bruma, que logo se dissipa. M., que não era dado à masturbação até então, passa a estimular-se com grande frequência diária, sonhando com o toque da mulher que o salvou da danação eterna.

Num lampejo incrível de criatividade delirante, resolve juntar os retalhos abandonados de chapéus descartados e construir a sua mulher. Ao tocar o veludo suave das primeiras peças que alcança, já sente a presença de sua amada. Isso o deixa excitadíssimo, alimenta a sua confiança, esmaga a sua culpa. Como um Dr. Frankenstein têxtil, monta um ser humano, como um quebra-cabeça, a partir dos restos dos chapéus. Couro, napa, feltro, veludo, lã seda, retalhos de centenas de formas e tamanhos, pigmentos de centenas de cores. É bom lembrar ao leitor que os retalhos de chapéus que M. usou para materializar em nosso universo a sua amada divina eram fragmentos de tentativas vãs de criar um chapéu para si próprio. Logo, M. cria uma companheira para ele à sua imagem. Sua amada é, em essência, ele próprio, retalhos remontados dele próprio.

Por fim, após dois anos de trabalho árduo e obcecado, M. termina a sua obra-prima. Considera-se um grande gênio iluminado. Considera-se um ser divino, o próprio Criador em forma humana. Chora muito. Aos olhos de uma pessoa comum, sua criação não passaria de um chapéu horrível, desajeitado e extravagante, um item de vestuário que ninguém em sã consciência ousaria ostentar em público ou mesmo em ambiente reservado. Para M., no entanto, é Holga, sua esposa, amante e salvadora. O toque final de sua criação, o sopro de vida de Holga, vem deu próprio corpo. Usa seu próprio sangue e sêmen para decorar o chapéu com motivos intrincados, bizarros e fantásticos. Ao vesti-lo, sente-se banhado pelo êxtase divino. Uma coroação sagrada.

Após quatro anos, finalmente deixa a sua casa, decidido a apresentar Holga ao mundo. Sua felicidade conjugal dura pouco. Como era de se esperar, foi tido como louco, internado num sanatório e submetido a tratamentos agressivos e invasivos. Foi separado de Holga. O tratamento de choque e a ingestão contínua de drogas poderosas não o abalavam. Apenas a distância de sua amada o desolava.

A intervenção da Associação Internacional de Experiências Imaginárias foi decisiva no tratamento de M. Nossos cientistas, após incansáveis apelos, lograram transferi-lo para um sanatório mantido pela Associação, nos arredores de Varsóvia. Ali, M. pôde viver uma vida plena, longe dos olhares inquisidores de pessoas tidas como sãs. Sempre ao lado de Holga, sua amada ou, para quem observa, um chapéu pavoroso e excêntrico demais.

Notes &

O caso do homem que confundiu seu chapéu com uma mulher, parte 2

M. era único em sua arte. Criou os mais belos chapéus e fez possível a felicidade de muitos. A sua própria felicidade, no entanto, não passava de um sonho distante.

Por muitos e muitos anos tentou criar um chapéu para si. Para o seu constante espanto, tal tarefa era-lhe por demais desafiadora, cansativa e exasperante. Ele, grande mestre da chapeleria, falhava em criar um chapéu para si próprio. Capaz de ler a alma de qualquer pessoa e traduzi-la num chapéu, sua própria ainda permanecia um segredo. Culpava-se por sua incompetência e logo deduziu que a origem de sua infelicidade residia no fato dele não possuir um chapéu. Pela primeira vez, duvidou de si próprio. Pela primeira vez escutou os latidos insistentes dos cães da autocrítica. Se assustou ao notar o quão ferozes podiam ser. Tem lugar uma trágica mudança. Os chapéus tomam um lugar completamente distinto em sua existência. O perseguem e o assustam. São agora fonte de grande tensão.

No momento em que M. alcança este ponto de sua narrativa, sua voz começa a se esvair, seus lábios murchando, o fôlego escapando num assobio. O medo o paralisa e o sufoca. Esse episódio deixou cicatrizes profundas em sua alma, que nem os muitos anos de psicanálise conseguiram sanar.

O medo. O medo e chapéus. Ocupavam o seu pensamento, até mesmo em sonhos (M. com frequência tentava nos explicar como era terrível viver constantemente soterrado por chapéus ameaçadores. Comparava a avalanches, areia movediça, pântanos pegajosos, um peso incrível).

Recolheu-se a uma cela minúscula e incômoda. Imaginária, é preciso esclarecer, mas ainda assim de fuga muito difícil. Por quatro anos, recolheu-se. Não era visto por ninguém. O boato de sua morte não demorou muito para tomar todo o país.

(Continua…)

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O caso do homem que confundiu seu chapéu com uma mulher

É notório o caso de M., o homem que confundiu seu chapéu com uma mulher. O primeiro relato de sua condição única foi publicado na edição de maio de 1935 do Journal of Imaginary Experiences e chamou a atenção do meio acadêmico.

Conhecido fabricante de chapéus do pequeno vilarejo de Dobrzyków, na Polônia, M. dedicou toda a sua vida a seu ofício. Ainda muito pequeno, já começava a manifestar os primeiros traços de sua condição única. Enxergava chapéus nas cabeças de todas as pessoas que cruzavam seu caminho.

Aos 6 anos, já desenhava e fabricava seus primeiros chapéus. Em pouco tempo, tornou-se conhecido na região como um chapeleiro brilhante e com apenas 15 anos já era considerado o chapeleiro mais talentoso da Polônia.

Era um indivíduo dotado de grande sensibilidade. Era capaz de reconhecer o verdadeiro caráter de uma pessoa com apenas um rápido olhar. Este traço especial aliado a um fantástico apuro estético o transformaram no fabuloso gênio da chapelaria polonesa. Cada criação sua era única, especial e perfeitamente adequada a cada cliente.Teve milhares de clientes e era idolatrado por muitos, por ter conseguido transformar em chapéu seus desejos, anseios, sonhos e idiosincrasias. Ao vestir uma criação de M., uma transformação incrível se processava no íntimo de cada indivíduo.

(Continua…)

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A cruz como esquema primário da árvore

Solicitada a desenhar uma árvore, a menina faz uma grande cruz, dizendo: “esta é uma cruz”. Em seguida, partindo do extremo superior do tronco desenha algo como uma espécie de bandeirola pendente e algumas linhas curvadas; à esquerda, no braço transversal da cruz, algumas garatujas circulares. A reação espontânea diante do tema é assombrosa: a cruz como esquema primário da árvore.